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Cruzeiro de São Francisco – Patrimônio Histórico de Itu

Na semana em que se comemora a vida e obra de São Francisco de Assis, nada mais justo que uma homenagem ao escravo Joaquim Pinto de Oliveira, o Mestre Canteiro Thebas autor do Cruzeiro de São Francisco de Itu e de várias obras de arte religiosa que o eternizaram como personagem da história colonial paulista.
 

Entre os inúmeros monumentos e obras de arte registrados pelo patrimônio histórico de Itu, o Cruzeiro de São Francisco, erguido no antigo largo de São Francisco (atual Praça Dom Pedro I), é a única memória que resta do imponente conjunto formado pelas edificações da Igreja São Luís de Tolosa, do Convento e da Capela da Ordem Terceira, erguidos pelos padres Franciscanos entre os Séculos XVII e XVIII.

Construído em cantaria (método de entalhe em pedra), com granito rosa era a porta de entrada do Convento Franciscano, fundado em 1692. Do Convento, hoje, só restam lembranças. Em 1907 um incêndio destruiu o prédio.
O Cruzeiro, datado de 1795 é, possivelmente, o único exemplar no mundo em rochas de arenito e varvito.
Reconhecidamente, trata-se de um raro monumento, além de outros dois cruzeiros completos do período colonial em todo o país com cruz e base preservados, que estão na Paraíba e em Olinda.

Outra obra importante do Mestre escravo foi a capela da Ordem Terceira do Carmo paulistana, em especial do delineamento de seu frontão que já francamente transita em direção ao rococó – obra feita inteiramente por Thebas entre 1772 e 1777.

Começou o trabalho ainda na condição de escravo de Dona Antonia Maria Pinto, viúva do Mestre Pedreiro Bento de Oliveira Lima, e o conclui já liberto por seu novo senhor, o Arcediago Matheus Lourenço de Carvalho, que provavelmente lhe prometeu alforria em troca da conclusão das obras do frontispício da Sé de São Paulo. Na década anterior, participara das obras da fachada da Igreja de São Bento. Frei Hortmann também registra a presença de Thebas nas obras do frontispício da Ordem Terceira Franciscana paulistana nos anos 1780-90.

O livro de registros da contabilidade dos franciscanos, iniciado em 1793, já não possui capa e suas folhas já foram agredidas pelos cupins. Todavia ainda pode-se ver o chamado Livro de Receita e Despesa do Convento franciscano de São Luiz, da Vila de Nossa Senhora da Candelária de Itu, escrituras e algumas outras informações, muito tempo depois descobertas, que noticiam a presença do mulato Joaquim Pinto de Oliveira, o Mestre Canteiro Thebas, em Itu, em Janeiro de 1795.

Itu, terra de grandes artistas

O cenário em Itu, no quarto final do século XVIII, era dos mais favoráveis ao desenvolvimento das artes; a riqueza proporcionada pela produção açucareira tornava a Vila de Nossa Senhora da Candelária o epicentro de uma economia em pleno desenvolvimento, propiciando iniciativas de cunho religioso-cultural que a colocava em pé de igualdade com a Capital da Capitania.

Assim, a presença de Thebas em Itu ficou registrada na literatura histórica, principalmente, pelo volume de obras de arquitetura religiosa que floresceram em Itu na última quadra do século XVIII. Na época, tudo favorecia o concurso de seu ofício e que o notabilizou na cidade de São Paulo, desde meados daquele século. Interessante é que não havia registros da sua presença fora da cidade de São Paulo, como se descobriu mais tarde, ao localizá-lo em Itu, dentre os registros de um livro de Receita e Despesa do Convento de São Luiz.

E, por outro lado, vem despertar interesse ainda maior sobre esse personagem da história colonial paulista que, pelo desconhecimento que havia sobre a sua origem, tomado inicialmente próximo até a uma figura de ficção, lendária, que aos poucos foi se desvelando aos olhos dos historiadores e agora o vemos também em Itu, onde talhou o Cruzeiro diante das igrejas da Ordem Primeira e Terceira de S. Francisco – único elemento que restou do grandioso conjunto arquitetônico.

Thebas foi um artífice muito habilidoso e quase único nas terras paulistas no seu ramo artístico. Ele faz parte daquele seleto grupo de artistas que se notabilizava no desempenho de suas atividades, dividindo as atenções com figuras destacadas pela literatura histórica, como José Patrício da Silva Manso e Padre Jesuíno do Monte Carmelo, aos quais foi introduzido, mais recentemente, Bartholomeu Teixeira pela magnífica obra de entalhe realizada na Matriz de Itu, única até agora identificada de sua autoria.

O que, porém, mais diferenciava Thebas dos demais artífices seus contemporâneos que se notabilizavam naquele quadrante final do século XVIII não era somente a origem escrava, mas sobre tudo a capacidade e perícia com que desempenhava o seu ofício, e tudo leva a crer que superou de longe o Mestre Bento, seu primeiro Senhor, que dele se valeu enquanto viveu.

Thebas alcançou a alforria por graça de uma alta autoridade eclesiástica, o Reverendíssimo Cabido da Sé paulistana.
 
 

A pesquisa da autoria da obra do Cruzeiro é de Carlos Gutierrez Cerqueira, formado em História (FFLCH USP, 1975) e Técnico em Pesquisa da Superintendência Regional do Iphan/SP com a colaboração de outros colegas.
 

Foto:   Cruzeiro de São Francisco - Aquarela de Miguel Dutra (1845) Foto do Prof. Jonas Soares de Souza
 
 Foto - Cruzeiro de São Francisco muito bem preservado