11 99231-6498
Language:
Apresentação
11 99231-6498
SIGA-NOS

Publicações 2021

A velha Barão de Itaim - principal rua do centro histórico de Itu

Memórias ituanas – a Rua Barão de Itaim tem muitas histórias
Memórias ituanas – a Rua Barão de Itaim tem muitas histórias
 

Nasci nela, em 1940, a principal rua da cidade que liga, até hoje, a Igreja do Carmo e a Matriz da Candelária. Minha casa era o número 97, duas para cima do Museu Republicano, onde hoje está o Hotel Internacional. A casa antiga era simples – uma porta e duas janelas para a rua. A primeira dependência era a sala de visitas. Depois vinha um imenso corredor escuro com saída para os quartos, cozinha e banheiro. A mesa retangular da grande cozinha, onde eram servidas as refeições, tinha gavetas. Uma tradição ituana.

No fundo havia um grande quintal de terra com duas mangueiras, dois abacateiros, alguns limoeiros e até um campinho de futebol com muitas galinhas. Meus pais eram o casal Júlio Dias de Carvalho e Maria Iracema Machado Carvalho que tinha o apelido de “filhinha”. Tiveram seis filhos: Luís, Maria de Lourdes, Lúcia, Roberto, Mário e Raul. Todos com a ajuda de parteiras porque, naquele tempo, não havia maternidades.

Os vizinhos para baixo da rua, em direção ao antigo jardim, eram o sobradão da família Almeida Prado, transformado no Museu Republicano de Itu, inaugurado em 1923. Ao lado dele, mais para baixo havia um posto telefônico. E, na esquina do largo da matriz um enorme prédio de estilo colonial, mais tarde demolido para a construção de um edifício de apartamentos.

Nossos vizinhos, em direção da Igreja do Carmo, onde fui coroinha, dos 10 aos 11 anos de idade, eram a família Luís Gonzaga Novelli e mais acima a família das Mesquitas, as três irmãs Nicota, Francisca e Gabriela. Em seguida estava o Orfanato e o casarão dos Pacheco, depois, da família Bispo. Na esquina do antigo Largo do Carmo, atual Praça da Independência, havia o “solar” da família do Coronel Epaminondas Teixeira Guimarães.

Era um sobradão enorme com um diferencial muito importante: tinha um belo e grande “porão”. Eu era amigo de um menino que morava lá. Acho que estudávamos juntos no Regente Feijó. E, com ele e outras crianças brincávamos, quase todas as tardes, naquele espaço lúdico que nos levava à imaginação de nos tornarmos príncipes, princesas, piratas e atores de um sonho de fantasias.

Nas calçadas de varvito, muitas crianças tinham um brinquedo muito diferente. Tratava-se de uma espécie de roda de bicicleta, sem pneu, na qual se encaixava um ferro comprido com a ponta em forma de “U”. E a diversão e desafio eram empurrar a roda, engatada no U com equilíbrio e correndo. Não percebia, mas acho que corria muitos quilômetros com a roda desafiadora.

Outro grande divertimento da minha turminha era, naquela época, no verão, ir ao Quartel brincar na piscina – era, na verdade, um tanque de concreto, sem revestimento que os militares deixavam a gente usar. A atração era brincar com centenas de “girinos” que flutuavam na água meio turva.

Voltando à Barão de Itaim, no final da rua estavam o jardim, a Igreja do Carmo e o convento, todos imponentes com séculos de vida religiosa. Mas, o principal para mim, era o anexo do lado direito da Igreja, um salão que aos sábados a tarde passava filmes para a criançada, todos de Carlitos. Eu não perdia nenhum – todos preto e branco e mudos. Mas, eu entendia tudo. Até hoje, quando tenho oportunidade, adoro continuar vendo os mesmos filmes de um dos maiores gênios do cinema e da vida. Ele escrevia o roteiro, compunha as músicas, era o ator principal – e a gente era feliz e não sabia.

Hoje, onde está a Biblioteca do Museu Republicano, havia um sobradão que, aos poucos, foi morrendo deteriorado. Ali, o imortal Almeida Júnior montou, por algum tempo, seu atelier artístico. Hoje, totalmente reformado, é um marco da cultura ituana.

Descendo mais um pouco estava e está até hoje, a casa da numerosa família de Gabriel Leite de Carvalho e a Sra. Ismênia Dias de Carvalho, meus tios. Geraram 11 filhos, todos meus primos. Em seguida, a lateral da Igreja de N.Sra. da Candelária, Matriz de Itu e a Praça Padre Miguel, coração da cidade.

Quem foi o Barão de Itaim?

O nome da principal Rua do Centro Histórico da Estância Turística de Itu tem o título de Barão de Itaim, um cidadão fazendeiro que em sua época (1821-1908) promoveu diversas melhorias para o então pequeno núcleo urbano da cidade. O título outorgado a Bento Dias de Almeida Prado, pelo Imperador Dom Pedro II, o elevou ao seleto grupo de beneméritos do Império tornando-se um nobre brasileiro.

Nascido em 16 de julho de 1821, Bento Dias de Almeida Prado era latifundiário, dono de um grande número de escravos, que acabou entrando para a história do município justamente pelo fato de, em 1884, quatro anos antes da Abolição Oficial da Escravatura, ter concedido liberdade à mão-de-obra negra que trabalhava em suas terras.

Na época, suas fazendas contavam com 113 escravos, que ganharam a liberdade sob a condição de continuarem a trabalhar, por dois anos, em suas propriedades, desta vez, como assalariados. No mesmo ano, concedeu aos escravos libertos uma parcela do rendimento obtido com as safras de açúcar.

Barão de Itaim recebeu esse título do Imperador Dom Pedro II em 1885, como reconhecimento por seu ato de dar liberdade aos seus escravos. Nessa época ele também acumulou o cargo de capitão da Guarda Municipal, atingindo o posto de major em 1893. O ituano também exerceu cargos públicos, cumprindo mandato de vereador, provedor da Santa Casa de Misericórdia de Itu e zelador do hospital dos Lázaros.

O Barão também foi um dos principais responsáveis pela implantação da iluminação pública em Itu. Em 1902, ajudou a fundar a Companhia Ituana de Força e Luz, contribuindo com 15,62% dos gastos. Ajudou a construir a Usina de Lavras, no Rio Tietê em Salto, de onde viria a energia elétrica para Itu, Salto e Porto Feliz, inaugurada no dia 24 de dezembro de 1906. O lendário Barão faleceu em 17 de fevereiro de 1908.


13/10/2021
 

www.grandeitu.com.br
Raul Machado Carvalho – Editor
grandeitu@grandeitu.com.br